sexta-feira, 1 de março de 2013

Fragmento #333

ou
"Âncora"


Ainda me esticava, tentando me desenroscar do sono e do lençol, com um cheiro que não era meu, num quarto e numa cama que não era minha.

Sobrava pouca coisa em mim.

Da última vez, perdi o pâncreas. Mas tudo bem, nem sabia pra que merda servia o pâncreas mesmo. Só cheguei no médico, após alguns exames, e perguntei

“E aí doutor, qual foi dessa vez?”.

“Ah tá tudo bem, foi só o pâncreas”.
Menos mal, pois tinha medo até que ponto poderia chegar. Já perdi:
um rim;
dois dentes;
um terço do intestino;
o pâncreas;
e ainda tenho o pulmão avariado.

O pulmão por causa de Mônica.
Ah, Mônica.
Essa era de tirar o fôlego mesmo, exigia muito do meu pulmão, ainda bem que prendi a respiração e disse chega,
antes que.

O rim,
por causa de Bárbara, que me dava muita cerveja porque gostava, ficavamos bêbados e não me deixava ir ao banheiro, pois tinha medo de ficar sozinha por mais de 2 minutos.

Tamara me levou os dois dentes. Era tão doce que seus beijos,
que exigia a todo momento,
me davam cáries.

Já o intestino
ficou com Jéssica, que cozinhava até que bem,
só que achava que não,
e eu tinha que comer mais rápido do que eu podia, se não ela começava a chorar por ser má cozinheira e de qualquer forma eu acabava passando mal.

O pâncreas eu sei lá, talvez tenha algo a ver com o intestino.

De qualquer forma agora era Ana, que estava deitada ao meu lado, com os cabelos esparramados no travesseiro e a baba mais inocente e linda que eu já vi escorrendo por um canto de boca.
Ana não exigia nada de mim.
Isso me dava liberdade e podia fazer o que quisesse. Podia levantar,
me vestir
ir embora sem dar satisfação nenhuma
e ela mesmo assim toparia sair mais tarde hoje ou no dia seguinte.
Era simples levantar e sair,
mas eu não conseguia.
Simplesmente não conseguia levantar dessa vez.
E agora, o que?
Meu primeiro pensamento foi que dessa vez teriam sido as pernas. Mas as pernas estavam lá
mexiam,
minha coluna também, só que o movimento de levantar da cama me parecia ridiculamente impossível. Algo me segurava naquele lugar e me impedia de ir embora,
de largar Ana antes que perdesse mais alguma coisa.

O sol ia ficando cada vez mais alto na janela enquanto eu tentava. Ia iluminando o lado de Ana, e ela acordou:
cabelos incendiando
coisinhas flutuando ao redor dela como se ela acabasse de nascer da luz.

Parei,

fiquei admirando ela limpar aquela babinha, olhando pra mim num silêncio de sonho.
Podíamos ficar em silêncio, não era problema, Ana não exigia nada de mim. Tive que desistir de levantar. Deitei e ficamos nos olhando,
tive a impressão de que talvez ainda não estivesse acordado,
tive a impressão de que não sentia nada ou que sentia tudo ao mesmo tempo.
E soube então o que não me deixava sair daquela cama.
Não me alarmei,
meu coração estava muito quieto e manso,
como se ele tivesse acabado de acordar de um profundo sono e ainda limpasse a baba,
como se tivesse acordado na mão de alguém recebendo carinho, 
em total silêncio,
como se nāo fosse mais meu.

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