domingo, 10 de agosto de 2014

Parto

Parto.
Parto de casa.
Parto do Brasil.
Parto-me em dois.
Parto-me em vários.
Parto do princípio de que ninguém « é » alguém sozinho.
Parto do princípio de que um « ser » é construído graças à ajuda de outros.
Parto do princípio de que são sempre as boas memórias que devem ficar.
Parto do princípio de que elas é que são nossas maiores riquezas.
Parto eternamente agradecido ao lugar e às pessoas que ajudaram me fazer do jeito que eu sou hoje.
Parto do princípio de que eles (vocês) fazem parte de mim e continuarão fazendo.
Parto do princípio de que em cada coisa que eu fizer daqui pra frente vai ter um pouquinho de vocês, e daqui.

Parto sim, mas tudo isso vem junto comigo.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Nada mais aqui

cet endroit coule déjà entre mes doigts
ces doigts qui cherchent ailleurs depuis longtemps

il y a ma langue qui ne trouve plus les mots
et il y a ces autres mots qui cherchent ma langue

c'est comme un consentement
et je me rends compte:

je n'y appartiens plus
et aussi rien n'y est plus à moi

certes, tout se passe naturellement et doucement
mais c'est précisément ça que me fait mal




domingo, 12 de janeiro de 2014

Um sono anterior

ontem
enquanto tentava dormir
acabei acordando
todo o resto de mim

nunca mais quero dormir.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Réveil

(nāo há o que fazer, se elas vêm até mim,
curvo-me
e escrevo)


BUM!
e lá se vai meu plano de dormir
desfeito numa tomada de consciência
e BUM! outra
sem que a preveja, sem que eu escute
porque uma explosāo nāo implica exatamente num barulho
de fato, na maioria dos casos ela é silenciosa

nāo, nāo é o barulho que nāo nos deixa dormir
(eu sei que você tem problemas com isso, por isso nos)
e sim o futuro
(e a culpa foi sua)
BUM!

e o futuro é mudo, inodoro
o futuro é depois de
é ainda nāo
e também é já
BUM!

é a lágrima
toda lágrima vem do futuro
e faz BUM!

(e é você também,
o que me conforta um bocado)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

12 de 12

até o rever


é difícil largar essa droga
mas já estou cheio:
me liberto:
me esvazio:
e como dói

sendo assim
me despeço da palavra
mas que nāo seja um adeus
que seja um au revoir

domingo, 1 de dezembro de 2013

Fragmento #1.969

Ou
“Final de Jogo”

"estar perto é sim, físico"


Eram sempre os jogos que davam vida à nossa vida. Era tão importante jogar, que quando ela saía para fazer qualquer coisa
– por exemplo, algo simples como ir ao salão de beleza –
apostavamos quanto tempo ia demorar,
que cor iria pintar o cabelo
e etc.


Com o tempo, as brincadeiras ficaram mais sofisticadas, algumas duravam semanas,
meses.
Estávamos fora de controle, mas a vida era divertida, nos aproximando cada vez mais, até que um dia, ocorreu o inevitável:


Ela tinha ido ao mercadinho. Quando voltou, trazia
dois pares de chinelos,
broa de milho
e mate com limão.
Vestia um dos novos pares de chinelos, que brilhava no escuro e que deveria servir para um novo jogo que lhe propus. Quem ganhasse escolheria o próximo jogo, além de uma punição para o perdedor.
Enquanto ela deixava o mate e a broa de milho na cozinha, corri, apaguei a luz e me escondi.
Então o jogo começou:
os chinelos caminharam na direção onde eu estava até o momento anterior, e se torceram de revolta por não me achar. Alguns minutos depois, andando de um lado para o outro, ela gemeu e disse que havia me achado,
pra eu me render,
mas eu não caí na armadilha de falar algo e continuei observando. Os chinelos dançavam,
pra lá,
pra cá,
até que ela chutasse uma cadeira invisível e a amaldiçoasse na sua escuridão, fazendo depois o chinelo voar contra a parede como um fantasma bêbado e brilhante.
O outro chinelo flutuou e flutuou até que parasse, apoiado no rodapé, como se meditasse numa estratégia.
Mas não era isso.
Ela havia tirado o outro chinelo também, e aquela era a sua estratégia:
desaparecer,
fundir-se na escuridão.
“Esperta, conseguiu”, pensei na hora, já aceitando o final do jogo:
ela, se fundindo com a escuridão, iria fundir-se a mim também, e aí acabava o jogo, porque me achava,
porque naquela hora
ela
era
eu.


Estava demorando muito e nada acontecia. Comecei a sentir uma pressão no peito, como se me empurrassem, mas talvez fosse só apreensão.
Depois de mais de meia hora, acendi a luz sobressaltado, com o coração quase explodindo:
não havia mais ninguém além de mim na casa:
ela havia sumido e era tudo
silêncio.


E talvez esse tenha sido o silêncio mais intenso de toda a minha vida, o mais demorado, já que dura até hoje.
Eu ando na rua e procuro ouvir sua voz,
sua respiração,
qualquer coisa que a acuse na escuridão.
Uso chinelos que brilham no escuro, parando nas padarias pra comer broas de milho e tomar chá mate, que tanto passei a gostar.
Chego a ficar dias em silêncio esperando alguma dica, apagando e acendendo as luzes da casa, sentindo como o jogo nunca tivesse terminado.


Minha vida
afinal,
acabou se resumindo a repetir esse jogo à exaustão, tentando descobrir o que houve, me retendo no final, um pouco antes do momento em que a luz era acendida. Faço os mesmos movimentos com os chinelos brilhantes
- até chuto a cadeira de novo. Uso a mesma estratégia:
me fundir na escuridão pra ver se te acho.

Nunca funciona.

11 de 12

minhas memórias aqui sāo físicas
sāo lugares
sāo vistas
sāo golpes
sāo ciladas
sāo espelhos
sāo fragmentos
que refletem tudo


quero estar longe
nāo me engano mais:
estar perto é sim, físico.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Y a quelque chose qui se passe


il y a quelque chose qui se passe
il y a quelque chose que je pense
mais il faudrait pas l’écrire

pourtant, y penser c’est déjà l’écrire quelquepart
et y penser c’est déjà le sentir quelquepart
c’est déjà te sentir quelquepart

mais il faut pas le dire
car c’est déjà dit 
quelquepart

ceci c’est mon premier poème en français
c'est déjà écrit
et c’est pour toi

tiens.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Fragmento #97

ou

O Reconhecimento



Onda vai,
onda vem,
e eu continuo sem saber bem pra onde ir.
Eu lembro quando te descobri, você estava de costas e tinha as māos na parede e eu quis jogar esse jogo
“isso é um assalto,
vou roubar seu coraçāo”
E foi como um assalto. Mas você quem me roubou. Me roubou tudo e foi maravilhoso. Fiquei estarrecido e sem fôlego como quando se olha pro mar. E na verdade era,
pro seu mar.
Essas águas que enganam, mal se dá três passos e se cai de joelhos.
Se cai com as mãos.
Se cai com o corpo todo,
com o mundo inteiro.


Reconheço: Não soube o que fazer e deixei que passasse.


Onda vai,
onda vem,
acabei passando por aí.
Andei por essas ruas, tão iguais as daqui, só que com menos cinza e cheias de areia; visitei lugares lindos, mas a maioria até piores do que os de cá; e afinal fiz coisas que faria em qualquer lugar do mundo, mas mesmo assim fiquei estarrecido. Não quis discutir com o que sentia porque afinal não queria contrariar a fama de cidade maravilhosa. Não, não discuti e continuei embasbacado mesmo sem saber, como quando se ama e não se sabe dizer por quê. Sem saber o que se sucedia, atribuí o ocorrido a nada mais que a mera estupefaçāo que se sente quando se sai do seu lugar de origem.
Depois, enquanto ia embora, aconteceram outras coisas inexplicáveis. Meus olhos viam sol, chuva, arco-íris e lágrimas ao mesmo tempo. E eu não entendia nada, esqueci até como se formavam as chuvas e os arco-íris,
quem diria as lágrimas.


Reconheço: Não soube o que fazer e deixei que passasse.


Onda vai,
onda vem,
descubro finalmente a origem das lágrimas. Chorei por descobrir que não chorava sem motivo. Que ainda podia chorar. Chorei por redescobrir os fenômenos da vida. Foi uma maravilha. Foi como me reencontrar no escuro, que foi como te reencontrar no escuro, que foi como nascer de novo.

Reconheço: Não sei o que fazer, melhor deixar passar.

10 de 12

Dizem que só apaixona-se três vezes na vida


o amor que eu sentia antes
por pessoas
diluiu-se em tudo
nos meus lugares
nos meus fazeres
nas minhas perspectivas
em mim
nāo apaixono-me mais
por ninguém
nāo consigo mais
meu amor é só meu
os outros que venham me apaixonar