Ou
“Final de Jogo”
"estar perto é sim, físico"
Eram sempre os jogos que davam vida à nossa vida. Era tão importante jogar, que quando ela saía para fazer qualquer coisa
– por exemplo, algo simples como ir ao salão de beleza –
apostavamos quanto tempo ia demorar,
que cor iria pintar o cabelo
e etc.
Com o tempo, as brincadeiras ficaram mais sofisticadas, algumas duravam semanas,
meses.
Estávamos fora de controle, mas a vida era divertida, nos aproximando cada vez mais, até que um dia, ocorreu o inevitável:
Ela tinha ido ao mercadinho. Quando voltou, trazia
dois pares de chinelos,
broa de milho
e mate com limão.
Vestia um dos novos pares de chinelos, que brilhava no escuro e que deveria servir para um novo jogo que lhe propus. Quem ganhasse escolheria o próximo jogo, além de uma punição para o perdedor.
Enquanto ela deixava o mate e a broa de milho na cozinha, corri, apaguei a luz e me escondi.
Então o jogo começou:
os chinelos caminharam na direção onde eu estava até o momento anterior, e se torceram de revolta por não me achar. Alguns minutos depois, andando de um lado para o outro, ela gemeu e disse que havia me achado,
pra eu me render,
mas eu não caí na armadilha de falar algo e continuei observando. Os chinelos dançavam,
pra lá,
pra cá,
até que ela chutasse uma cadeira invisível e a amaldiçoasse na sua escuridão, fazendo depois o chinelo voar contra a parede como um fantasma bêbado e brilhante.
O outro chinelo flutuou e flutuou até que parasse, apoiado no rodapé, como se meditasse numa estratégia.
Mas não era isso.
Ela havia tirado o outro chinelo também, e aquela era a sua estratégia:
desaparecer,
fundir-se na escuridão.
“Esperta, conseguiu”, pensei na hora, já aceitando o final do jogo:
ela, se fundindo com a escuridão, iria fundir-se a mim também, e aí acabava o jogo, porque me achava,
porque naquela hora
ela
era
eu.
Estava demorando muito e nada acontecia. Comecei a sentir uma pressão no peito, como se me empurrassem, mas talvez fosse só apreensão.
Depois de mais de meia hora, acendi a luz sobressaltado, com o coração quase explodindo:
não havia mais ninguém além de mim na casa:
ela havia sumido e era tudo
silêncio.
E talvez esse tenha sido o silêncio mais intenso de toda a minha vida, o mais demorado, já que dura até hoje.
Eu ando na rua e procuro ouvir sua voz,
sua respiração,
qualquer coisa que a acuse na escuridão.
Uso chinelos que brilham no escuro, parando nas padarias pra comer broas de milho e tomar chá mate, que tanto passei a gostar.
Chego a ficar dias em silêncio esperando alguma dica, apagando e acendendo as luzes da casa, sentindo como o jogo nunca tivesse terminado.
Minha vida
afinal,
acabou se resumindo a repetir esse jogo à exaustão, tentando descobrir o que houve, me retendo no final, um pouco antes do momento em que a luz era acendida. Faço os mesmos movimentos com os chinelos brilhantes
- até chuto a cadeira de novo. Uso a mesma estratégia:
me fundir na escuridão pra ver se te acho.
Nunca funciona.
Dolorido, é até estranho elogiar, portanto, deixo ao menos a intenção.
ResponderExcluir