sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Fragmento #97

ou

O Reconhecimento



Onda vai,
onda vem,
e eu continuo sem saber bem pra onde ir.
Eu lembro quando te descobri, você estava de costas e tinha as māos na parede e eu quis jogar esse jogo
“isso é um assalto,
vou roubar seu coraçāo”
E foi como um assalto. Mas você quem me roubou. Me roubou tudo e foi maravilhoso. Fiquei estarrecido e sem fôlego como quando se olha pro mar. E na verdade era,
pro seu mar.
Essas águas que enganam, mal se dá três passos e se cai de joelhos.
Se cai com as mãos.
Se cai com o corpo todo,
com o mundo inteiro.


Reconheço: Não soube o que fazer e deixei que passasse.


Onda vai,
onda vem,
acabei passando por aí.
Andei por essas ruas, tão iguais as daqui, só que com menos cinza e cheias de areia; visitei lugares lindos, mas a maioria até piores do que os de cá; e afinal fiz coisas que faria em qualquer lugar do mundo, mas mesmo assim fiquei estarrecido. Não quis discutir com o que sentia porque afinal não queria contrariar a fama de cidade maravilhosa. Não, não discuti e continuei embasbacado mesmo sem saber, como quando se ama e não se sabe dizer por quê. Sem saber o que se sucedia, atribuí o ocorrido a nada mais que a mera estupefaçāo que se sente quando se sai do seu lugar de origem.
Depois, enquanto ia embora, aconteceram outras coisas inexplicáveis. Meus olhos viam sol, chuva, arco-íris e lágrimas ao mesmo tempo. E eu não entendia nada, esqueci até como se formavam as chuvas e os arco-íris,
quem diria as lágrimas.


Reconheço: Não soube o que fazer e deixei que passasse.


Onda vai,
onda vem,
descubro finalmente a origem das lágrimas. Chorei por descobrir que não chorava sem motivo. Que ainda podia chorar. Chorei por redescobrir os fenômenos da vida. Foi uma maravilha. Foi como me reencontrar no escuro, que foi como te reencontrar no escuro, que foi como nascer de novo.

Reconheço: Não sei o que fazer, melhor deixar passar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário