“Ressaca”
O céu escuro se misturava com o mar, ondas negras quebravam em suas pernas. E então, de novo esse desconforto subindo pela sua laringe, como se fosse...
No fundo, sabia que isso poderia acontecer desde o primeiro copo. Era muito vinho só para eles dois, e sabia
desde a primeira estrela na varanda
desde o primeiro brinde – tão clichê com pôr-do-sol de fundo – até o último gole quente da garrafa.
Sabia desde a subida da maré até as pontas duplas dos cabelos dela, que quebravam em seu colo e sua barriga, lugar onde de repente se passava uma acalorada discussāo entre borbulhas ameaçadoras, tomando conta de tudo, prontas pra transbordar.
Já sentia algo subindo e se exasperava, calculando se teria tempo pra evitar um possível desastre. Esboçou um movimento para levantar-se
- mas a torpeza do vinho e essas ondas quebrando em seu colo.
Nāo havia tempo. Pensava já se ela ficaria brava com ele e já tentava formular alguma desculpa envolvendo a temperatura do vinho, a maresia
ou algo assim.
Mas estava tonto, já sentia aquilo na garganta que era de um agridoce querendo já sair. Seu corpo entrava num leve tremer, prevendo o estrago.
E era aquilo.
Não havia mais como segurar,
talvez lhe perdoasse se for o caso.
Quase numa convulsāo, fechou os olhos e,
sem nem conseguir respirar como em geral acontece nesses casos,
abarcando de uma vez todo o espaço que havia entre sua boca e a outra boca, coberta pelas ondas em seu colo,
botou tudo pra fora num atropelo desesperado:
eu te amo.
Na sequência, foi engolido pelo mar.
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